segunda-feira, 7 de março de 2011

Semeador


Vincent Van Gogh - Semeador




Mas todo o Semeador
Semeia contra o presente.
Semeia como vidente
A seara do futuro
Sem saber se o chão é duro
E lhe recebe a Semente.

                   Miguel Torga

sexta-feira, 4 de março de 2011

DEMOCRACIA POR MEDIDA

Guardo na memória uma professora que tive nos meus anos de liceu na disciplina de Saúde. Ironia das ironias, a senhora fumava como uma desalmada e sentia necessidade de confrontar constantemente os alunos com a frase “olha para o que eu digo, não para o que faço”. Nunca concordei com a moral da frase! Mais do que um recurso pedagógico, esta velha máxima parece-me mais reflexo de uma atitude hipócrita de quem é incapaz de dar o exemplo, apesar de saber que, mais do que qualquer outra pessoa, esse era o seu dever.
Apesar de nem sempre ser traduzida de forma tão expressiva, parece-me que muitos dos portugueses vivem sob esta máxima, situação que pode explicar os atropelos constantes à lei por parte da nossa sociedade e as tão conhecidas jogadas de bastidores que, em prejuízo do bem comum, servem interesses individuais ou corporativos. Daqui resulta a fragilidade da nossa democracia, traduzida na escassez de cidadania dos portugueses e no alto descrédito das instituições públicas.
Muitos dos profissionais da política que temos no país são os grandes culpados por este estado de coisas. É que, tal como a professora de Saúde, deveriam ser os primeiros a darem o exemplo. Só que, tantas vezes, são os primeiros sim, mas é na arte de ludibriar, de jogar, de desrespeitar as regras básicas da democracia que tanto apregoam.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Expectativas Enfastiosas


Aconteceu este fim-de-semana em Barcelona uma avalanche de novidades no Mobile World Congress, feira internacional de telemóveis, com o anúncio do lançamento de grandes novidades tecnológicas que vão muito além do simples acto de comunicar telefonicamente e que nos deixam desde já com os olhos em bico. As notícias dão conta de avanços que vão desde ecrãs touch com ícones a três dimensões à possibilidade de captura de imagens a 12 megapixéis.

Também o Jacinto do Eça, suspirava em pleno séc. XIX, pelas últimas novidades da Mecânica e a elas se rendia sem reservas. Uma máquina de abotoar ceroulas era apenas um das muitas maravilhas com que estava equipado o palacete dos Campos Elísios, n.º 202. E no entanto, “pobre Príncipe da Grã-Ventura, tombado para o sofá da inércia…em que lodoso fastio caíra.”

Passadas que foram tantas descobertas, tanta maquinaria nova, tanta tecnologia dada à luz, tanta informática revolucionária, será que nos enfastiamos menos? Ou mais?

Difícil será dizê-lo com todas as letras. Evidente porém é que todos os dias nos são sugeridas novas necessidades e não só passivamente as integramos, como delas nos tornamos facilmente dependentes.

Talvez por isso andemos todos tão meditabundos. Mas, tal como acreditava o amigo do Jacinto, Zé Fernandes, uma existência mais temperada não será assim tão complicada de alcançar. Eventualmente, bastará abrir janelas e não depositar tanta expectativa na parafernália electrónica que nos servem de bandeja como se da melhor coisa do mundo se tratasse.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Mulheres

"Sim, meu caro, as mulheres são um eixo sobre o qual tudo gira."
                             Lev Tolstoi – Anna Karenina

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O Abutre

Não é fácil conservarmos a noção exacta da realidade. Todos os dias e das mais variadas formas somos injectados com doses maciças de surrealismo que nos dão como adquirido coisas como um Portugal tecnologicamente evoluído, em que até as criancinhas computam; solidariamente forte, em que até aos velhinhos são oferecidos telemóveis para contactos de urgência; e infra-estruturalmente desenvolvido, com pontes que são exemplos de engenharia e TGV aí ao virar da esquina.
A natureza dos acontecimentos quotidianos resiste, contudo, às rasteiras matreiras da retórica e a cada passo, qual lufada de ar fresco, os mais variados episódios deixam-nos com os pés bem assentes no chão. É aí que nos deparámos com Portugal na sua verdadeira dimensão. Um país célere a cobrar impostos aos contribuintes, mas marimbando-se puramente e simplesmente para os problemas e apertos das pessoas concretas, a não ser para aquelas que, tendo tempo, sejam turronas e estejam dispostas a prescindir de boa parte da sua dignidade, pedinchem dias e horas a fio nas intermináveis filas das burocracias nacionais.
Como a dona Augusta Duarte Martinho, pobre coitada, não pôde dar de si para reclamar dignidade e defender os seus pertences, o Estado Social, para quem se calhar descontou toda a vida, pura e simplesmente não quis saber. Morta no chão da cozinha há nove anos, foi preciso entrar em campo o Estado Fiscal que, sem que ninguém o chamasse, esse sim funcionou na perfeição, cobrando-lhe as suas inevitáveis dívidas ao fisco com o leilão da sua habitação, numa imagem perfeita do necrófago abutre.
Num ápice, ficámos a perceber por que é que a página da internet do Ministério das Finanças funciona na perfeição, enquanto a sua congénere do Ministério da Segurança Social é bem mais limitada. Por que é que não existem filas à porta das finanças, enquanto que na segurança social são precisas injecções de paciência para as pessoas serem atendidas. Por que razão numa os prazos não falham, e noutra não existem .
Bem vindos à terra!

Amanhã, 17-02-2011, no Cidade Hoje Jornal